Igreja comemora o Ano Paulino: se não tenho por que morrer, não tenho porque viver

Levando em consideração que a Igreja comemora o ano de São Paulo Apóstolo, pedi ao meu pai, Paulo Cezar, futuro Diácono, que preparasse um texto sobre este grande santo, a fim de que eu postasse neste blog. Espero que gostem. Fica aqui, então, o agradecimento ao paizinho que eu tanto amo. Segue o texto:

Faz dois mil anos que nasceu em Tarso da Cilícia, hoje Turquia, aquele que era chamado “o Apóstolo das Gentes”, ou seja, das Nações ou, simplesmente Paulo (em língua grega) ou ainda Saulo (em hebraico).  Mas quem era esse Paulo? Ele mesmo tratou de responder essa pergunta diante do povo de Jerusalém, que gritava e pedia sua prisão e morte: “Eu sou um Judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mais cresci nesta cidade, formado na escola de Gamaliel, na mais rígida norma da lei paterna, cheio de zelo por Deus” (At 22,3). Paulo não conheceu Jesus em vida, em Jerusalém ou nas estradas da Galiléia, como os Doze Apóstolos, mas sendo o primeiro a ter tido experiência com o Ressuscitado, abriu esse caminho místico a todos os cristãos que aceitaram a mensagem de Jesus. Esse judeu, que era também cidadão romano, recebeu como missão ir pregar a Palavra de Deus a todos os homens: primeiro em Antioquia e na Ásia Menor, depois na Grécia e em Roma. Paulo é o personagem mais bem conhecido da primeira geração cristã, tanto pelas cartas que escreveu, que representam para nós uma fonte excepcional, quanto pela história de sua vida narrada por Lucas, nos Atos dos Apóstolos. Todavia, sua figura, continua a ser misteriosa. Hoje eu gostaria de refletir, não uma história passada, irrevogavelmente superada, mas de enfatizar que também hoje Paulo quer falar conosco. Neste Ano Paulino, devemos escutá-lo para aprender com ele, qual nosso mestre, a Fé e a Verdade, que são as nossas raízes desde os primeiros discípulos de Cristo. Nesta perspectiva quero acender uma especial “Chama Paulina”, que permanecerá acesa em meu coração, durante este ano e, oxalá, ao longo de minha vida. Neste ano preciso mudar a minha pergunta inicial (Quem era este Paulo?) e me perguntar, sobretudo: Quem é este Paulo? O que ele disse a mim? Como devo imitar o seu testemunho no Novo Testamento? Talvez, preciso, inicialmente, refletir a sua Carta aos Gálatas onde ele nos dá uma profissão de fé muito pessoal, onde abre o seu coração aos leitores de todos os tempos e revela qual seria a mola mais íntima da sua vida: “Vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20a).
 
A sua fé é a experiência de ser amado por Jesus Cristo de modo pessoal, é a consciência do fato de que Cristo afrontou a morte não por qualquer coisa anônima, mais por amor dele, de Paulo, e se entregou por ele, e como Ressuscitado o ama sempre. A sua fé está alicerçada em ser alcançado pelo amor de Cristo, um amor que o assola até o íntimo e o transforma. A sua fé não é uma teoria, uma opinião sobre Deus e sobre o mundo. A sua fé é o impacto do amor de Deus em seu coração. E assim esta mesma fé é o seu amor por Jesus Cristo. Há muito Paulo vem sendo apresentado como um homem combativo e que sabe manejar a espada da palavra. Na primeira de suas cartas, aos Tessalonicenses, ele mesmo diz: “Temos tido a coragem de anunciar-vos o Evangelho de Deus em meio a muita luta” (1Ts 2,2). A verdade que havia experimentado no encontro com o Ressuscitado reservava para ele a luta, a perseguição e o sofrimento. Mas que o motivava no seu mais profundo, era o desejo de transmitir aos outros o amor de Deus.  Paulo é um homem acometido de um grande amor e toda a sua obra e o seu sofrer somente se explica a partir deste centro, o amor. Os conceitos fundamentais do seu anúncio se compreendem unicamente com base nisso, o amor: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, não sou nada. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada valeria!” (1cor 13,1-3). Paulo é um homem livre. Somente quem ama Cristo como Paulo o ama, pode verdadeiramente fazer aquilo que quer, porque o seu amor está unido à vontade de Cristo e assim à vontade de Deus, porque a sua vontade esta ancorada à verdade e porque a sua vontade não é mais simplesmente sua, mas está integrada na liberdade de Deus. Por isso ele diz: “Nenhum de nós vive para si, e ninguém morre para si. Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor. Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. Para isso é que morreu Cristo e retomou a vida, para ser o Senhor tanto dos mortos como dos vivos” (Rm 14,7-9). “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20b.) Gostaria de concluir com uma palavra de Paulo, uma exortação a Timóteo, próximo à sua morte: “Sofre também tu junto comigo pelo Evangelho” (2Tm 1,8). Esta palavra, como um testamento, ecoa em meu coração, um coração de alguém encantado por Paulo e, como ele, apaixonado por Cristo. Esta Palavra me leva ao meu primeiro encontro com o Ressuscitado, me retorna ao meu Damasco, me lembra do meu Ananias, aquele que me abriu os olhos para a Verdade. Esta palavra lembra-me a promessa de Jesus para mim, naquele momento: “Este homem é para mim um instrumento escolhido, que levará o meu nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel. Eu lhe mostrarei tudo o que terá de padecer pelo meu nome”. (At 9,15s). O encargo do anúncio e o chamado ao sofrimento por Cristo estão indivisivelmente juntos. Esse chamado é intrinsecamente um chamado ao sofrimento em comunhão com Cristo, que nos redimiu mediante a sua Paixão. Num mundo em que a “mentira” impera, a “verdade” se paga com o sofrimento. Quem quer fugir do sofrimento, não pode ser servidor da verdade e assim servidor a fé. Não existe amor sem sofrimento, sem o sofrimento da renúncia de mim mesmo, da transformação e purificação do “eu” pela verdadeira liberdade. Quando não existe nada que valha a pena que se sofra, também a vida perde o seu valor: Se não tenho por que morrer, não tenho porque viver.

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3 Respostas to “Igreja comemora o Ano Paulino: se não tenho por que morrer, não tenho porque viver”

  1. Roberto Cordeiro Says:

    Suzana,

    Simplesmente lindo! Um belo depoimento. Uma verdadeira profissão de fé. Parabéns ao pai Paulo…

  2. JACKELINE Says:

    Olá lindas palavras.
    Que bom que morramos pertinho né.
    Menina ao post anterior a violencia e terrivel fui ao Rio no inicio do ano e fiquei horrorizada.
    Bjs ao Pedro.

  3. audilene dantas Says:

    Que Deus abençoe a contribuição que seu pai deu com este rico texto e a você que deixa transparecer o sentimento de amor e gratidão.
    ass.: Audilene Dantas

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