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A culpa

abril 17, 2010

Escrever para mim é a melhor forma de desabafar. E hoje estou mais que necessitada. O que sinto se resume em uma pequena palavra: culpa. E a culpa da minha culpa está diretamente ligada ao tempo. Aliás, à falta dele. O grande problema é que, definitivamente, 24 horas não são o suficiente para que eu cumpra os diversos papéis da minha vida: esposa; mãe; profissional; filha; amiga; dona de casa; mulher.  Daí eu já começo o dia me sentindo culpada. Preciso fazer uma atividade física. Solução: academia. Contudo, só se for às 6h30 da manhã. Eu quero e necessito conquistar uma rotina, mas meu corpo sonolento e ainda exausto do dia anterior não me deixa levantar. A culpa já toma seu lugar de honra do dia, avisando-me, ainda, que o mês da academia já foi pago e o dinheiro está indo pro lixo. Acordo, então, e começo a correr. Após o banho, o drama para escolher a roupa do dia. Digo drama porque engordei e minhas roupas não entram mais. Daí, restam-me aquelas que tive coragem de comprar maior. Visto-me, culpada porque não fui pra academia resolver o problema do peso. Preparo a mochila do Pedrinho, o uniforme e o lanche. Dou banho no pequeno, enquanto preparo o leite e o pão da manhã. Troco a roupa do Pedro, brigo na hora de escovar os dentes dele e saio disparada pra deixá-lo na casa da minha sogra, antes de ir para o trabalho. É claro que a culpa já me pega de jeito. Estou atrasada, como sempre. Afinal, eu e o relógio, vulgo tempo, não nos entendemos bem. A culpa também começa a me lembrar que este é um dos poucos momentos que eu tenho com o meu filho durante o dia. Chego no trabalho. Digo “bom dia!” constrangida e com a culpa estampada no rosto pelos 20 minutos de atraso. Ligo o computador e busco um café para acordar de vez. A minha mesa no trabalho, com papéis espalhados pra todo lado, já denuncia: as coisas não estão bem e há acumulo de serviço. Entro na net e aproveito pra dizer “bom dia!” pro meu marido por e-mail ou pelo gtalk. Já entro no site da Folha, do G1, do correioweb, do Estadão, da CNI, do governo federal, etc e vejo o que tem de bom pro meu jornal no dia seguinte. No meu e-mail do trabalho, a chefa me lembra, com uns dez e-mails, das pendências daquele dia. Reunião, pauta pro Jornal, release do Sesi, revisão de um texto, cobertura de um evento, matéria que não foi pro site, contato com os jornalistas… O telefone toca. É meu pai ou minha mãe. Faz duas semanas que não os vejo. A culpa me recorda, mais uma vez, que está ali, sentada ao meu lado, como companheira fiel. Não tenho tempo pra minha família, nem marido e filho, que dirá pais e irmãs. Mas ainda bem que existe o telefone. A saudade já diminui. A manhã é curta e logo passa. São meio-dia. Preciso engolir a comida e correr de volta pra casa da minha sogra. Antes, passo na padaria e compro alguma coisa bem gostosa para o Pedro levar no lanche (o suco e a fruta eu já mandei de manhã). Chego à casa da minha sogra, dou banho no Pedro  (é mais um momento que tenho pra não me sentir a pior mãe do mundo), coloco o uniforme, meia, tênis,perfume, e não consigo fugir da segunda briga para escovar seus dentes. Deixo ele e a priminha no colégio e volto às pressas para o trabalho, afinal, há muita coisa a fazer. A tarde é longa, contudo, curta para mim. As pendências da manhã têm que ficar prontas no fim do dia. Isso é jornalismo. Não bastasse as coisas que tenho pra fazer, ainda ligam o Correio, o Jornal de Brasília, a TV cultura, a CBN… tudo jornalista precisando falar com alguém da casa ou querendo dados da indústria do DF. São 18h. O expediente está acabando. Meu estômago ronca e me avisa da fome. É claro que eu não trouxe a fruta que a nutricionista mandou e nem comi o biscoito de água e sal às 16h. Só me entupi de café. Fecho o Jornal depois das 19h. São quase 20h e meu marido já está com raiva de mim. A culpa, que não me deixou nenhum segundo do dia, me lembra que eu não vou ver meu filho acordado (meu marido já o pegou no colégio, deu banho, janta e o pôs pra dormir), vou chegar em casa pelo quarto dia da semana tarde e cansada, e sem muito tempo pra dar atenção ao maridão, que também precisa de mim. Ahhhh, a culpa também me lembra que eu não tive tempo de fazer aquele release da educação do Sesi e que o texto do murão ficou em cima da minha mesa, à espera de correção. Em casa, além do meu marido, a louça e o uniforme do Pedro me esperam. Preciso lavá-los. Meu filho está num sono profundo e meu marido chateado, como sempre. O cansaço me avisa que eu não terei forças para ir à academia no dia seguinte. Mas eu ainda tenho ânimo de ver mais um capítulo da nova série que eu e o Alê estamos vendo. Nova para mim, aliás. Isso porque ele já viu todos os capítulos durante a semana, enquanto me esperava. Vejo um capítulo pescando. Meus olhos não me obedecem mais. Ele percebe que eu dormi e fica mais chateado ainda. Na cabeceira da cama, permanece, intacto, o terço que eu prometi rezar todos os dias com ele. A culpa me avisará no dia seguinte que eu esqueci de rezar. E, é claro, também dorme comigo, me recordando, por meio de sonhos, que não terei tempo, também amanhã, de fazer tudo outra vez.