A culpa

Escrever para mim é a melhor forma de desabafar. E hoje estou mais que necessitada. O que sinto se resume em uma pequena palavra: culpa. E a culpa da minha culpa está diretamente ligada ao tempo. Aliás, à falta dele. O grande problema é que, definitivamente, 24 horas não são o suficiente para que eu cumpra os diversos papéis da minha vida: esposa; mãe; profissional; filha; amiga; dona de casa; mulher.  Daí eu já começo o dia me sentindo culpada. Preciso fazer uma atividade física. Solução: academia. Contudo, só se for às 6h30 da manhã. Eu quero e necessito conquistar uma rotina, mas meu corpo sonolento e ainda exausto do dia anterior não me deixa levantar. A culpa já toma seu lugar de honra do dia, avisando-me, ainda, que o mês da academia já foi pago e o dinheiro está indo pro lixo. Acordo, então, e começo a correr. Após o banho, o drama para escolher a roupa do dia. Digo drama porque engordei e minhas roupas não entram mais. Daí, restam-me aquelas que tive coragem de comprar maior. Visto-me, culpada porque não fui pra academia resolver o problema do peso. Preparo a mochila do Pedrinho, o uniforme e o lanche. Dou banho no pequeno, enquanto preparo o leite e o pão da manhã. Troco a roupa do Pedro, brigo na hora de escovar os dentes dele e saio disparada pra deixá-lo na casa da minha sogra, antes de ir para o trabalho. É claro que a culpa já me pega de jeito. Estou atrasada, como sempre. Afinal, eu e o relógio, vulgo tempo, não nos entendemos bem. A culpa também começa a me lembrar que este é um dos poucos momentos que eu tenho com o meu filho durante o dia. Chego no trabalho. Digo “bom dia!” constrangida e com a culpa estampada no rosto pelos 20 minutos de atraso. Ligo o computador e busco um café para acordar de vez. A minha mesa no trabalho, com papéis espalhados pra todo lado, já denuncia: as coisas não estão bem e há acumulo de serviço. Entro na net e aproveito pra dizer “bom dia!” pro meu marido por e-mail ou pelo gtalk. Já entro no site da Folha, do G1, do correioweb, do Estadão, da CNI, do governo federal, etc e vejo o que tem de bom pro meu jornal no dia seguinte. No meu e-mail do trabalho, a chefa me lembra, com uns dez e-mails, das pendências daquele dia. Reunião, pauta pro Jornal, release do Sesi, revisão de um texto, cobertura de um evento, matéria que não foi pro site, contato com os jornalistas… O telefone toca. É meu pai ou minha mãe. Faz duas semanas que não os vejo. A culpa me recorda, mais uma vez, que está ali, sentada ao meu lado, como companheira fiel. Não tenho tempo pra minha família, nem marido e filho, que dirá pais e irmãs. Mas ainda bem que existe o telefone. A saudade já diminui. A manhã é curta e logo passa. São meio-dia. Preciso engolir a comida e correr de volta pra casa da minha sogra. Antes, passo na padaria e compro alguma coisa bem gostosa para o Pedro levar no lanche (o suco e a fruta eu já mandei de manhã). Chego à casa da minha sogra, dou banho no Pedro  (é mais um momento que tenho pra não me sentir a pior mãe do mundo), coloco o uniforme, meia, tênis,perfume, e não consigo fugir da segunda briga para escovar seus dentes. Deixo ele e a priminha no colégio e volto às pressas para o trabalho, afinal, há muita coisa a fazer. A tarde é longa, contudo, curta para mim. As pendências da manhã têm que ficar prontas no fim do dia. Isso é jornalismo. Não bastasse as coisas que tenho pra fazer, ainda ligam o Correio, o Jornal de Brasília, a TV cultura, a CBN… tudo jornalista precisando falar com alguém da casa ou querendo dados da indústria do DF. São 18h. O expediente está acabando. Meu estômago ronca e me avisa da fome. É claro que eu não trouxe a fruta que a nutricionista mandou e nem comi o biscoito de água e sal às 16h. Só me entupi de café. Fecho o Jornal depois das 19h. São quase 20h e meu marido já está com raiva de mim. A culpa, que não me deixou nenhum segundo do dia, me lembra que eu não vou ver meu filho acordado (meu marido já o pegou no colégio, deu banho, janta e o pôs pra dormir), vou chegar em casa pelo quarto dia da semana tarde e cansada, e sem muito tempo pra dar atenção ao maridão, que também precisa de mim. Ahhhh, a culpa também me lembra que eu não tive tempo de fazer aquele release da educação do Sesi e que o texto do murão ficou em cima da minha mesa, à espera de correção. Em casa, além do meu marido, a louça e o uniforme do Pedro me esperam. Preciso lavá-los. Meu filho está num sono profundo e meu marido chateado, como sempre. O cansaço me avisa que eu não terei forças para ir à academia no dia seguinte. Mas eu ainda tenho ânimo de ver mais um capítulo da nova série que eu e o Alê estamos vendo. Nova para mim, aliás. Isso porque ele já viu todos os capítulos durante a semana, enquanto me esperava. Vejo um capítulo pescando. Meus olhos não me obedecem mais. Ele percebe que eu dormi e fica mais chateado ainda. Na cabeceira da cama, permanece, intacto, o terço que eu prometi rezar todos os dias com ele. A culpa me avisará no dia seguinte que eu esqueci de rezar. E, é claro, também dorme comigo, me recordando, por meio de sonhos, que não terei tempo, também amanhã, de fazer tudo outra vez.

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3 Respostas to “A culpa”

  1. paula Belmino Says:

    Olá muita saudades, realmente vc anda sumida, tomara vc consiga fazer as coisas que deseja fazer, abraços

  2. Cristiane Says:

    Oi Suzana, sou a Cristiane_Mãe do Gui e do Biel lá da Comunidade Crescer. Lembra ?
    Sempre entro aqui procurando notícias suas e do príncipe e hoje pra minha suspresa vc tinha deixado um post.
    Não se sinta culpada, somos MÃES, ESPOSAS e PROFISSIONAIS…mas não somos 3 pessoas.
    Pena que sempre sobra pro maridão…o meu reclama muito, lá em casa são dois…Já imaginou ?
    Quando saio pela manhã, ainda estão dormindo. O pai os leva pra escola, isso significa….troca de roupa, pentear cabelos e escovar os dentes. O mais velho é mais relax, mas o menor ODEIA ser acordado e tb escovar os dentes.
    Todo dia é a mesma coisa, ligo pra sber como foram e recebo a resposta malcriada: – O que vc acha ?
    A minah sorte é que saio quase sempre às 17 horas, chego em casa e ainda tenho tempo de brincar com eles no Play nos dias mais quentes ou ficar assistindo de camarote as 1001 brigas pro qualquer coisa.
    Eles são os melhores amigos, mas tb os maiores inimigos. É até engraçado.
    Quanto ao corpo, nem minha aliança entra mais….roupa tah complicado. Academia…tem lá no prédio, mas nem tento…sei que não irei conseguir.
    Acordo todo dia 05:40 h, preciso me arrumar, fazer o café dos meninos e preparar as merendeiras. Impossível pela manhã.
    Na hora do almoço, se for a academia acabo não comendo e à noite querop fica com eles.
    O lance é fechar a boca, mas sou uma formiguinha e adoro porcarias.
    Acabei de devorar 2 bolinhos Ana Maria.
    Se quiser conversar mais, em passa um email.
    Fica com Deus e um enorme beijo no Pedro.
    Cris

  3. Samantha Says:

    ô amiga …triste … por você, por mim… pelos nosso filhos que têm que passar tanto tempo sem nós. Pelos nossos casamentos que não sei se aguentam mais 10 anos dessa ausencia.
    Enfim por nós que também perdemos tanto no nosso dia a dia.
    Beijo e força pra vc

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