O retorno

Ansiosa estava eu no saguão do Aeroporto Internacional de Brasília naquele domingo de manhã. Meus olhos míopes procuravam um serzinho de 1,10m no alcance da visão. De repente, o vejo correndo com sua camisa do Vasco – o time do coração imputado pelo pai desde bebê – em minha direção. Aquele foi o abraço mais apertado e mais demorado que já recebi. Seus bracinhos grudaram em meu pescoço e suas perninhas enlaçaram minha cintura. Seu corpo dizia, sem necessitar de palavras, algo do tipo: “Mamãe, não vá embora. Preciso de você!”. Tive que me livrar das malas e nem a bolsa eu pude abrir com ele no colo. Aquelas perninhas enlaçadas na minha cintura não queriam descer ao chão. O meu rapaz, que já tem quatro anos, voltara a ser um bebê e pedia colo.

No caminho até o estacionamento, perguntei: “Posso te beijar muito?”. Sua cabecinha apenas afirmou que sim. Ao chegar ao carro, ele se pôs a pedir: “Mamãe, não vá no banco da frente. Sente-se comigo”. Meu marido, então, ficou de motorista. Já no lado de trás do carro, Pedrinho segurou forte o meu braço e por longos minutos me acariciou. Baixinho, ele dizia o que sentia: “Mamãe, fiquei com muita saudade sua. Eu te amo”. O pequeno falou repetidas vezes essas frases até chegar a casa…

Como perceberam, estou de volta. E esta viagem fez a nós todos crescer. Como disse no post anterior, tive que ir à Salvador, em função de uma cobertura de um grandioso evento. O Alê, por sua vez, precisou ir a São Paulo, também a trabalho. Pedrinho ficou, pela primeira vez, sem nós, hospedado na casa da vovó. Uma semana afastados, cada um em uma capital distinta. Mas valeu e vou dizer o porquê.

Desde que o Pedrinho nasceu, há quatro anos, assumi o papel da maternidade como o primeiro em minha vida. De lá pra cá, abdiquei de inúmeras coisas por ele. E não me arrependo nem um segundo por isso. Mas nós, mães, não queremos nunca que o cordão umbilical seja cortado, embora tenha sido a primeira coisa que o médico fez após o nascimento do bebê. Assim, muitas vezes, acabamos por não deixar os nossos filhos serem independentes, uma vez que fazemos tudo por eles. A superporteção, inclusive, pode atrapalhar o desenvolvimento das crianças. Pelo menos eu sou assim. Dessas que faz tudo pelo filho amado… E essa viagem me fez perceber que eu já tenho um rapazinho dentro de casa que, embora tenha morrido de saudade, pode se comportar muito bem longe da mamãe.

Já meu marido sofreu um pouco mais do que eu. A vida dele é o Pedro e ele nunca permitiu que o pequeno dormisse longe de nós, nem para sairmos juntos. Ele elenca uma porção de dificuldades e sempre acaba desistindo da ideia de deixar o Pedro na casa das avós. Ele é um paizão, muito diferente do que se vê por aí. Apaixonado pelo Pedro, vira criança com ele e faz todas as vontades do pequeno. Mas, desta vez, não teve jeito. Trabalho é trabalho e nós não tínhamos como dizer não. O Alê, então, perdeu o controle que sempre teve nas mãos, e teve que confiar que os avós do Pedrinho iriam cuidar dele direitinho na nossa ausência. Assim, o Alê aprendeu que – em alguns momentos necessários – somos substituíveis e que a vidinha do Pedrinho nem sempre pode estar sob nosso controle e proteção.

Pedrinho, por sua vez, aprendeu que o papai e a mamãe não podem sempre estar ao seu lado. Eu e o Alê nos revezamos para estar com ele sempre. Todos os dias eu acordo, arrumo o pequeno, tomamos o café da manhã os três juntos. Na hora do almoço, eu corro do trabalho e faço questão de ir em casa arrumá-lo para ir ao colégio, preparar seu lanche e deixá-lo na escolinha. À noite, o Alê o busca após a aula. Quando eu chego, ficamos os três juntinhos e, muitas vezes, até nos sentamos no chão para brincar. Os fins de semana são todos nossos e o pequeno sempre está nos nossos planos de passeio, mesmo que seja um compromisso de adultos. Desta forma, Pedrinho não tem tempo de sentir saudade de nós. E, com essa viagem dupla, do papai e da mamãe, o pequeno passou por algo inédito em sua vidinha. Mas se comportou como um rapazinho, obedeceu a vovó, foi à escolinha… Mas sentiu, verdadeiramente saudade de nós. Lá pela quinta-feira, numa das ligações diárias que fiz, minha sogra contou que ele estava choroso e perguntou: “Pedrinho, o que você tem? Conte pra vovó”. Ele respondeu: “Vou falar, vovó. É saudade da minha mãe”. [Quase chorei, é claro.] Mas o pequeno passou pela provação bravamente.

E assim, sinto que estamos, os três, mais maduros. O Alê teve que voltar para São Paulo =mais uma semana fora. Eu e o Pedrinho ficamos um grude. Coloquei-o pra dormir na minha cama e até nos abraçamos durante a noite. Ele está tranquilo e visivelmente feliz como o meu retorno. Contudo, estamos os dois como saudades do pai, que está há quase um mês indo e vindo da capital paulista.

Com isso tudo, fica a certeza que passamos por mais uma etapa. Aprendemos e crescemos.

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2 Respostas to “O retorno”

  1. luaesuasfases Says:

    Aff amiga, que sufoco vocês passaram hein?
    Bom, eu já deixei o Théo dormir umas duas vezes na casa da minha mãe, mas levei à noite e fui buscar ele logo pela manhã. Mas não imagino o que seja passar um dia inteiro sem ver meu filhote.
    Vou ter que passar os dois dias na maternidade quando o segundo nascer né? então tenho sim que me preparar para essa distância temporária.
    Já estou sofrendo por super antecipação! rs
    Graças a Deus deu tuuuudo certo e foi uma experiência enriquecedora para vocês!!!
    Beijoooo
    Sam

  2. Matilde isabela Says:

    Amiga, imagino o quanto seu coração ficou apertado… Mas um grande amadurecimento para essa família linda!!!! Que Deus abençoe muito vcs… Saudades

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