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Valei-nos, São José!

março 19, 2014

No dia 19 de março, é celebrada a Solenidade de São José, esposo da bem-aventurada virgem Maria, padroeiro da Igreja Universal. A data foi fixada em 1870, durante o Concílio Vaticano I, ocasião em que o Papa Pio IX colocou a Igreja Católica sob a proteção de São José. Mas, embora aclamado patrono da Igreja, pouco se conhece sobre o Santo. A Bíblia não traz muitas informações acerca de José. Pela narrativa dos Evangelhos, sabe-se – de forma genérica – que ele acolheu Maria por esposa tornando-se, assim, pai adotivo de Jesus e figura exemplar da Sagrada Família. Contudo, é possível, por meio da Sagrada Tradição e de conhecimentos da história antiga, assim como a conjuntura social, política e religiosa da época, seguir pistas para “construir” a figura de José.

Em seu livro, ”José, Sombra de Deus Pai”, o profundo estudioso do Santo e Josefino, pe. Giuseppe Perona, falecido no ano de 2011 em Brasília, ressalta a passagem do evangelista Mateus, que denomina José como um homem justo (Mt 1,19). Segundo pe. Perona, muito mais que a qualificação como “justo”, essa palavra indica, também, uma categoria de pessoas que se comprometiam a observar a Lei em toda sua plenitude, como exemplo para outros.

“José, como Saquid (justo), foi um líder na sociedade. Exerceu uma influência espiritual acentuada na comunidade judaica de Nazaré, e assumiu uma responsabilidade muito grande frente aos habitantes. Para isso, precisava de uma preparação adequada e de um grande empenho pessoal”, revela em seu livro. “Eis, então, que devemos admitir que sua educação foi superior ao nível comum dos outros israelitas. Aprendeu, com certeza, o hebraico das Escrituras, noções fundamentais de grego e de latim e os segredos de interpretar a Torah como uma profundidade admirável”, ressaltou o estudioso por meio da obra.

Este Saquid, justo, recebeu, portanto, Maria por esposa. São Mateus descreve que, embora Maria estivesse desposada com José, “antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo” (Mt 1,18). De acordo com estudiosos, a mulher judia casava-se muito nova. Desta forma, devia permanecer na casa dos pais por cerca de um ano até atingir a maturidade sexual. Passado este tempo, dava-se a segunda parte do casamento, quando, então, o marido buscava a esposa. Autores defendem que foi entre a primeira e a segunda fase das núpcias que se deu a anunciação à Maria e o mistério da concepção de Jesus.

“Neste primeiro momento é que percebemos, claramente, em José, modelo de esposo, que dedicou toda sua vida a Jesus e Maria”, diz o padre josefino Aleixo Susin, vigário da Paróquia São Paulo Apóstolo.

Pe. Aleixo ressalta José como “modelo de esposo”, uma vez que, mesmo sendo um Saquid, conhecedor profundo e cumpridor das leis judaicas, não denuncia Maria por adultério – o que levaria a mãe de Jesus à pena de morte e, não querendo difamá-la, “rejeita-a secretamente”. Após este episódio, o evangelista Mateus relata que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonho e disse-lhe para que não temesse receber Maria por esposa, pois o filho que nela havia sido concebido era obra do Espírito Santo.

“O ato de receber Maria como esposa, mesmo não sendo pai de Jesus, mostra que José aceita e acolhe, a partir dali, o plano divino. Ele aderiu em sua vida, a todo o mistério que lhe estava sendo revelado. E Deus continuou a falar em seu coração”, comenta o pe. George Albuquerque, pároco da Catedral Metropolitana de Brasília. Ainda segundo pe. George, São José é um exemplo de esposo que deve ser seguido por todos os homens casados. “Ele compreende que o desígnio da salvação está ligado, intrinsecamente, a Maria. Após entender esta revelação de Deus, José exerce, na condição de esposo, a proteção plena à Maria. Ele a guarda. Ama. Cuida. Protege. Permanece fiel e casto até a sua morte”, ressalta o sacerdote.

Os versículos bíblicos que relacionam José e Maria, mais do que históricos, trazem dados teológicos. A relação do casal, no qual se encarna o Redentor, Aquele que trouxe a salvação, torna-os ‘casal ministro da Encarnação’. José e  Maria são, assim, modelo para o casal cristão.

José, o pai adotivo de Jesus

Pode-se dizer que Maria, por ser mãe e ter gerado  – na carne – o filho de Deus, dá a vida a Jesus de Nazaré. Mas, é por meio da filiação de José, que Jesus torna-se um ser social. “Pela genealogia  de Cristo (Mt 1,1-16), percebe-se o curso da história da Salvação. O que foi revelado no Antigo Testamento, José traz consigo. Portanto, pela adoção feita por José, Jesus vive, por excelência, uma unidade com todo o mistério salvífico”, explica pe. George.

De acordo com o Antigo Testamento, depois de rejeitar Saul, Deus mandou que Samuel ungisse a Davi e prometeu que a descendência de Davi jamais deixaria o trono de Israel (II Sm 7,12-17). Esta promessa se cumpre, precisamente, na genealogia de Jesus, já que José pertencia à estirpe de Davi. 

Para pe. Perona, “foi por meio de José que Jesus teve raízes num povo, numa linhagem. Foi por meio dele que Jesus foi inserido numa tradição e aprendeu uma profissão. […] O Filho de Deus, que plantou sua tenda no meio de nós, pôde, legalmente, ser considerado Filho do Homem”, analisou o estudioso em seu livro.

Em outras passagens bíblicas, percebe-se o profundo papel de José enquanto pai do Salvador. É ele quem leva a virgem Maria e o menino para a apresentação no templo, a fim de cumprir as leis judaicas (Lc 2,22).

José também mostra-se obediente e protetor ao fugir para o Egito (Mt 2,13-15) com sua esposa e filho, com o intuito de defender o pequeno Jesus da ira de Herodes, que mandou matar os “meninos de Belém e arredores com menos de dois anos de idade”, e para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: Eu chamei do Egito meu filho (Os 11,1).

Em outro episódio, José retorna para Jerusalém, “aflito” (Lc 2,48), como diz a Escritura, para encontrar o jovem Jesus, que não estava na caravana que voltava das festividades da Páscoa para Belém. O casal encontra o filho no templo, sentado entre os doutores, interrogando e respondendo às perguntas dos sábios. 

Educador de Jesus, José, carpinteiro por profissão, ensina seu ofício ao filho (Mc 6,3). O carpinteiro, no tempo de Jesus, era o operário que sabia fazer tudo com a madeira. Esta era uma profissão apreciada pelo povo. “Os evangelhos mostram José como um trabalhador honesto, que soube cuidar de toda família por meio do digno trabalho de suas mãos”, enaltece pe. Aleixo.

A Igreja também celebra o dia de São José, Operário, em 1º de maio, data civil marcada pelo Dia do Trabalhador.

 

A morte de José – o silêncio dos Evangelhos

As Sagradas Escrituras nada relatam sobre a morte de José. Após o episódio da perda e do encontro de Jesus em Jerusalém, os Evangelhos não falam mais de José. Estudiosos supõem, no entanto, que sua morte deu-se antes da vida pública do Salvador. Isso porque, nas núpcias de Caná, o evangelista João cita, apenas, Jesus e Maria presentes na festa (Jo 2,1). Caso estivesse vivo, o Santo certamente estaria presente no casamento e não deixaria de ser citado por João no relato bíblico.

 

Curiosidade

Diversos autores desmistificam, ainda, a imagem de José como um ancião. Para os estudiosos, o esposo de Maria era moço e vigoroso. Com muita probabilidade de acerto, acredita-se que José tenha nascido entre os anos 33 e 26 antes da nossa era.